A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio percebe nos últimos anos que a dependência emocional cada vez mais costuma ser vista de forma equivocada e simplista, como uma falha de caráter. A consequência disso é a proliferação da ideia de que a pessoa simplesmente não tem força de vontade suficiente para se libertar de um vínculo que já não faz bem há tempos, um conceito bem equivocado.
Essa interpretação, embora bastante comum e disseminada no senso comum popular, ignora completamente os mecanismos psíquicos que realmente sustentam esse tipo de padrão, tratando como simples escolha algo que, na maioria das vezes, opera completamente fora do controle consciente da pessoa envolvida.
O mito de que dependência emocional é falta de força de vontade
Frases como “é só se animar” ou “é só sair que isso passa” sugerem que a dependência emocional se resolveria com uma simples decisão consciente, bastando que a pessoa reunisse coragem suficiente e genuína para agir de forma completamente diferente do que já vinha fazendo. Essa expectativa irreal costuma vir de quem nunca vivenciou esse tipo de padrão de perto e subestima completamente a força de mecanismos psíquicos que operam abaixo do nível da vontade consciente de cada pessoa.
Na prática cotidiana, esse tipo de padrão costuma ter raízes muito anteriores ao relacionamento atual em si, formadas em experiências de afeto instável vividas ainda na infância ou em relações anteriores que deixaram marcas profundas e duradouras na forma como a pessoa aprendeu a se vincular afetivamente com outras pessoas ao longo da vida inteira.
O que faz a dependência emocional se sustentar?
A dependência emocional costuma funcionar como um mecanismo de regulação interna e automático: a pessoa aprendeu, ao longo de toda a vida, que sua própria estabilidade emocional depende da aprovação ou presença constante de outra pessoa, e romper esse padrão exige reconstruir, praticamente do zero, uma capacidade de autorregulação que nunca foi plenamente desenvolvida antes.
De acordo com Taiza Tosatt Eleoterio, isso explica por que simplesmente “decidir” sair não costuma funcionar sozinho de forma imediata, mesmo com toda a boa vontade e determinação genuína. No fim das contas, falta a estrutura interna que sustentaria essa decisão ao longo do tempo, mesmo quando a intenção consciente já está claramente presente e sincera. É como pedir que alguém corra uma maratona inteira sem nunca ter treinado antes, apenas porque decidiu, num impulso, que agora queria correr essa distância toda.
Por que julgar quem é dependente emocionalmente não ajuda?
Cobrar força de vontade constante de alguém que ainda não desenvolveu essa estrutura interna necessária costuma apenas reforçar sentimentos de vergonha e inadequação profunda, tornando ainda mais difícil buscar ajuda especializada para lidar com a questão de forma adequada e efetiva a longo prazo.
Por conta dessas questões, Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que esse tipo de julgamento, mesmo quando vem de boa intenção genuína e cuidado real, comunica que o problema é moral, quando, na verdade, é psicológico e bastante complexo, o que costuma afastar a pessoa de quem poderia ajudá-la de verdade nesse momento tão difícil.
Como sair desse padrão sem se culpar pelo processo?
Em síntese, entende-se que reconhecer com clareza que a dependência emocional tem origem em processos psíquicos específicos e complexos, e não em falta de caráter, é o primeiro passo real para buscar ajuda sem o peso adicional da autocrítica excessiva que costuma acompanhar esse tipo de sofrimento silencioso e mal compreendido pela sociedade.
Diante do exposto, a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio comenta que o acompanhamento terapêutico especializado costuma ser o caminho mais eficaz e seguro para reconstruir essa estrutura interna aos poucos e com muita paciência. Desse modo, permite-se que a pessoa desenvolva, com o tempo, uma capacidade real de sustentar a própria estabilidade emocional sem depender inteiramente de outra pessoa para isso.
