Concurso avaliou mais de 2.700 amostras em todo o país e mostrou o quanto Minas Gerais segue como referência na produção nacional de queijos finos
Quem acompanha de perto o universo dos laticínios artesanais já sentia essa movimentação há alguns anos, mas 2026 confirmou o que muitos produtores diziam nos bastidores: o queijo brasileiro amadureceu, e o mercado percebeu isso. O Prêmio Queijo Brasil, considerado o maior concurso de produtos lácteos artesanais do país, encerrou sua edição deste ano com um recorde de inscrições, reunindo produtores de 347 municípios espalhados por diferentes regiões. O resultado reforça uma tendência que vinha se desenhando desde o início da década: o consumidor está cada vez mais disposto a pagar por queijos com identidade própria, produzidos em pequena escala e carregados de história.
Mais do que uma disputa entre marcas, o concurso funciona como um retrato do momento em que vive a queijaria nacional. E esse retrato, neste ano, trouxe um protagonista conhecido: Minas Gerais, estado que segue como o maior polo de produção artesanal do Brasil e que, mais uma vez, provou isso com números expressivos.
Minas Gerais lidera o ranking e reforça sua tradição queijeira
Segundo dados divulgados pela organização do prêmio, o estado mineiro liderou disparado o ranking de premiações, somando 619 medalhas entre as mais de 2.700 amostras avaliadas por uma equipe de cerca de 150 jurados especializados. Paraná e Santa Catarina completaram o pódio, confirmando que a produção artesanal de queijos deixou de ser um fenômeno restrito a poucas regiões e passou a se espalhar por diferentes biomas e culturas produtivas do país, segundo o Portal CNN Brasil V&G.
Um dos destaques da edição foi a criação da distinção “Seleção Queijista”, voltada exclusivamente a produtos que já haviam recebido medalha de ouro. Entre os premiados nessa categoria especial estão laticínios de diferentes estados, prova de que a excelência queijeira brasileira não tem mais um único endereço fixo. Municípios pequenos, com poucos milhares de habitantes, como é o caso de regiões da Serra da Mantiqueira, vêm se consolidando como polos gastronômicos justamente por apostarem em receitas tradicionais, muitas vezes passadas entre gerações dentro da mesma família produtora, de acordo com o Portal Queijo Coalho Brasil.
A organização do prêmio também prestou uma homenagem especial a uma pesquisadora da Universidade Federal de Viçosa, reconhecida por décadas de estudo sobre a microbiota dos queijos artesanais brasileiros. O gesto simboliza algo importante para o setor: o reconhecimento de que a ciência por trás da fermentação e da maturação tem papel tão relevante quanto a tradição na hora de explicar por que um queijo se destaca dos demais.
Feiras e encontros técnicos aquecem o calendário do setor
O fortalecimento da queijaria artesanal não aparece só nos concursos. Ao longo do primeiro semestre de 2026, uma série de feiras e encontros técnicos movimentou o setor em diferentes pontos do país. Em São Paulo, a Cinemateca Brasileira recebeu a sétima edição da Feira do Caminho do Queijo Paulista, reunindo 17 queijarias artesanais e cerca de 60 expositores entre restaurantes, cervejarias e produtores de alimentos, conforme relatou o Portal Receitas Band. O evento, criado há nove anos por um coletivo de produtores paulistas, nasceu justamente para dar mais visibilidade a queijarias que antes ficavam restritas ao circuito local.
No Paraná, outro movimento chamou atenção do setor. A terceira edição do Conecta Queijo, realizada no ecossistema de inovação Biopark, em Toledo, reuniu quase 200 participantes entre produtores, pesquisadores e representantes da indústria para debater o que especialistas já chamam de queijaria autoral brasileira. Durante o evento, um pesquisador da Universidade de Surrey, no Reino Unido, apresentou uma abordagem sobre ciência sensorial, explicando como a percepção cultural influencia diretamente a forma como o consumidor se conecta com um determinado tipo de queijo, segundo informações do Biopark Educação.
Já no interior paranaense, a cidade de Dois Vizinhos sediou a terceira edição do Inova Queijo, evento voltado a fortalecer a cadeia produtiva do leite e dos laticínios artesanais na região, reunindo produtores rurais, agroindústrias familiares e pesquisadores em uma programação de palestras e exposições, de acordo com a Rádio Educadora FM.
O que esse movimento sinaliza para quem consome e para quem produz
Para quem acompanha o setor de perto, a leitura desses números é bastante clara. O crescimento nas inscrições de concursos, somado à multiplicação de feiras e encontros técnicos, mostra que a queijaria artesanal brasileira está passando por um processo de profissionalização acelerado. Produtores que antes vendiam apenas na feira da própria cidade hoje disputam medalhas nacionais e recebem visitas de pesquisadores internacionais interessados em entender as particularidades da microbiota local.
Do lado do consumidor, o reflexo já aparece nas prateleiras e nas mesas de restaurante. Queijos com denominação de origem, produzidos em pequenos lotes e com processos de maturação mais elaborados, deixaram de ser exclusividade de lojas especializadas e passaram a ganhar espaço em supermercados e cartas de harmonização. Esse movimento tende a se intensificar nos próximos anos, à medida que novas regiões produtoras conquistam reconhecimento e a tradição queijeira brasileira segue se diversificando entre estados e biomas diferentes.
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