Enquanto o consumo mundial de vinho recua, o Brasil segue na direção contrária, puxado por um público mais jovem e por rótulos nacionais cada vez mais premiados
Nem sempre é fácil explicar por que um mercado cresce quando praticamente todo o resto do mundo está encolhendo. É exatamente esse o cenário do vinho brasileiro em 2026. Enquanto diversos países tradicionalmente produtores enfrentam queda no consumo, atingindo o menor patamar desde 1961 segundo dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho, o Brasil caminha na direção oposta. Projeções do setor apontam que o mercado nacional deve movimentar mais de R$ 22 bilhões neste ano, consolidando uma década de crescimento consistente no consumo por habitante.
Esse descompasso entre o Brasil e o restante do mundo levanta uma dúvida natural para quem observa o setor: o que explica esse apetite crescente do brasileiro por uma bebida que, até pouco tempo atrás, era vista como reservada a ocasiões especiais?
Consumo per capita cresce e muda o perfil de quem bebe vinho
Os números ajudam a entender o fenômeno. O consumo médio de vinho por habitante no Brasil saltou de 1,8 litro para 2,7 litros entre 2019 e 2022, um avanço de mais de 40%, segundo levantamento divulgado pelo Portal Divvino. Já na última década, o crescimento acumulado chega a cerca de 30%, de acordo com dados da OIV citados pelo Portal Novo Momento. Apenas no primeiro trimestre de 2025, o país movimentou R$ 3,9 bilhões em mais de 110 milhões de garrafas comercializadas.
Mais do que o volume, chama atenção a mudança no comportamento do consumidor. O vinho deixou de ser associado apenas a jantares formais e passou a integrar momentos informais, como encontros de fim de semana e refeições do dia a dia. Um dos reflexos dessa transformação é a preferência crescente por rótulos brancos e mais leves: segundo a consultoria Ideal, especializada em inteligência de mercado para bebidas, as vendas de vinhos brancos cresceram 28% na comparação entre o primeiro trimestre de 2025 e o último trimestre de 2024, puxadas por castas como sauvignon blanc, fiano e viognier, conforme reportagem do Portal Bares e Restaurantes.
Ainda assim, o Brasil está longe de se aproximar dos maiores consumidores da região. A Argentina segue como líder absoluta na América Latina, com consumo médio de 21,6 litros por pessoa ao ano, quase oito vezes o índice brasileiro. A distância mostra que, apesar do crescimento acelerado, o mercado nacional ainda tem um caminho longo pela frente, o que reforça o potencial de expansão nos próximos anos.
Regiões produtoras se expandem para além do eixo tradicional
Outro capítulo importante dessa história acontece direto no campo. A vitivinicultura brasileira, historicamente concentrada na Serra Gaúcha, vem se espalhando para regiões que até pouco tempo não faziam parte do mapa do vinho nacional. A colheita de inverno de 2026 já começou em vinícolas da Chapada Diamantina, na Bahia, além de propriedades associadas no Distrito Federal e em Goiás, que cultivam castas como viognier, syrah e cabernet franc, segundo reportagem do Portal Deu Bom Brasília.
Essa expansão geográfica é sustentada por técnicas como a dupla poda, desenvolvida a partir de pesquisas iniciadas em 2000, que inverte o ciclo vegetativo da videira e permite colheitas em períodos diferentes dos tradicionais. O resultado é um país que hoje produz vinho em praticamente todas as regiões, do Sul ao Centro-Oeste, com rótulos que já vêm recebendo notas superiores a 90 pontos em guias especializados.
Paralelamente à expansão da produção, o setor também investe pesado em educação do consumidor. Empresas especializadas em valorizar a brasilidade do vinho vêm promovendo treinamentos, confrarias e eventos corporativos para aproximar produtores e público, segundo o Portal Sala da Notícia. Festivais como o CWB Wine, que chega à segunda edição em Curitiba, também ajudam a consolidar novas praças de consumo fora do eixo tradicional Rio de Janeiro e São Paulo.
Um mercado que ainda tem muito espaço para crescer
Juntando os pontos, fica mais fácil entender por que o Brasil se tornou uma exceção no cenário mundial do vinho. A combinação entre um consumidor mais jovem, disposto a experimentar rótulos nacionais, uma produção que se espalha por novas regiões e um trabalho consistente de educação sobre a bebida cria um ambiente favorável ao crescimento contínuo do setor.
Para os próximos anos, a expectativa do mercado é que esse movimento se mantenha, especialmente à medida que novas denominações de origem ganham reconhecimento e o público brasileiro segue descobrindo que vinho de qualidade também se produz, e se bebe, em casa.
Fontes consultadas:
