Cidade gaúcha reafirma posição de maior produtora de vinhos do Brasil ao sediar a 4ª edição do CBVM, com 51 rótulos premiados.
A cidade de Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul, reforçou nesta semana sua fama de maior produtora de vinhos do Brasil ao sediar a cerimônia de premiação da 4ª edição do Concurso Brasileiro de Vinho de Mesa, o CBVM. O evento aconteceu na quinta feira, na Escola Internacional de Gastronomia da Universidade de Caxias do Sul, reunindo proprietários de vinícolas participantes e autoridades locais. Ao todo, 51 vinhos receberam medalhas entre prata, ouro e grande medalha de ouro, e a própria Flores da Cunha, apelidada de Terra do Galo, ficou com 11 desses rótulos, o equivalente a 21,5% de tudo que foi premiado. O resultado levanta uma dúvida natural para quem acompanha o setor: por que um concurso nacional de vinho de mesa, categoria historicamente menos valorizada que os finos, vem ganhando tanto espaço institucional e comercial na vitivinicultura brasileira?
Por que o vinho de mesa ganhou um concurso próprio
O Concurso Brasileiro de Vinho de Mesa nasceu de uma constatação simples do setor: por muito tempo, os holofotes da vitivinicultura nacional se concentraram nos vinhos finos, deixando de lado uma produção que também movimenta a economia de diversas regiões e emprega milhares de famílias. A diretora do CBVM, Zoraida Lobato Viotti, tem destacado que a competição surgiu justamente da necessidade de valorizar as uvas e o produto nacional, e não apenas rótulos inspirados em referências europeias. Essa proposta explica por que a quarta edição reuniu amostras de vinícolas de diferentes portes, de grandes marcas a pequenos produtores familiares, todos avaliados pelos mesmos critérios técnicos.
A parceria entre entidades também chama atenção nesta edição. A Embrapa Uva e Vinho participou da avaliação, com pesquisadores contribuindo para o avanço da qualidade dos rótulos inscritos, incluindo variedades desenvolvidas pela própria instituição, como as cultivares da linha BRS. Já o financiamento do setor apareceu como outro ponto sensível ao evento: representantes de instituições financeiras ligadas ao cooperativismo destacaram que grande parte do crédito disponível para o agronegócio da região passa por linhas voltadas justamente à vitivinicultura, o que ajuda a explicar a capilaridade do concurso entre pequenas e médias vinícolas gaúchas. Esse conjunto de fatores, ciência aplicada, crédito direcionado e valorização institucional do vinho de mesa, forma a base que sustenta o crescimento do CBVM a cada edição.
O que os números da premiação dizem sobre o mercado gaúcho
Os 51 vinhos premiados na edição de 2026 vieram de amostras enviadas por vinícolas de diferentes municípios da Serra Gaúcha, mas a concentração em Flores da Cunha chama atenção por um motivo específico: a cidade tenta, há alguns anos, conquistar o reconhecimento formal como Capital Nacional da Vindima, título que reforçaria ainda mais o peso simbólico e turístico da região. Resultados como o do CBVM entram justamente como argumento técnico para essa disputa, já que mostram concentração de qualidade em um raio geográfico relativamente pequeno.
Esse movimento acontece em paralelo a outra frente de reconhecimento internacional, mais voltada aos vinhos finos e espumantes. No Brazil Wine Challenge 2026, único concurso brasileiro realizado sob patronagem da OIV, o país liderou o ranking de premiações, somando 241 medalhas, das quais 28 foram Grande Ouro, provenientes principalmente do Rio Grande do Sul, que concentrou 168 premiações no total. Já em concursos europeus recentes, como o Vinalies Internationales e o Chardonnay du Monde, vinícolas gaúchas somaram dezenas de medalhas adicionais, incluindo prêmios de Grande Ouro. O conjunto desses resultados, tanto no vinho de mesa quanto no vinho fino, sugere que a Serra Gaúcha vive um momento de maturação simultânea em diferentes segmentos de produção, o que fortalece a região como destino de investimento e também de turismo enológico.
O que esperar do vinho brasileiro nos próximos meses
Para quem consome vinho no dia a dia, o crescimento do CBVM tem um efeito prático: maior disponibilidade de rótulos nacionais com relação custo benefício mais acessível, já que o vinho de mesa costuma ter preço mais competitivo que os finos premiados internacionalmente. A tendência é que essa categoria ganhe mais visibilidade em prateleiras de supermercados e adegas ao longo do segundo semestre, à medida que os resultados do concurso circulam entre distribuidores e consumidores.
Do ponto de vista comercial, o projeto Wines of Brazil, que coordena a presença de vinícolas nacionais em feiras internacionais, já relatou resultados concretos de geração de negócios em eventos como a Wine Paris e a ProWein Düsseldorf, o que indica que o interesse por vinhos brasileiros não se limita ao mercado interno. Ainda assim, o principal obstáculo apontado por especialistas do setor continua sendo a precificação: até que o mercado internacional reconheça plenamente a qualidade dos rótulos nacionais, produtores seguem enfrentando dificuldade para posicionar seus vinhos em faixas de preço compatíveis com a qualidade entregue. Para o consumidor brasileiro, no entanto, esse cenário funciona a favor: rótulos premiados, tanto de mesa quanto finos, seguem custando menos do que equivalentes importados de qualidade semelhante, o que torna o momento oportuno para experimentar a produção nacional.
Fontes consultadas: Jornal O Florense e A Vindima.
