Conforme observa Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a hérnia de hiato é uma das condições digestivas mais comuns na terceira idade e uma das mais frequentemente confundidas com outros problemas. O idoso que sente queimação no peito depois de comer, que acorda com gosto amargo na boca, que tosse sem causa aparente ou que sente a comida subindo depois das refeições pode estar convivendo com uma hérnia de hiato sem saber, tratando apenas os sintomas enquanto a condição subjacente permanece sem diagnóstico adequado.
Entender o que é essa condição, por que ela produz azia e refluxo com tanta frequência no idoso e o que muda na alimentação para controlá-la é o que esse artigo se propõe a oferecer de forma clara e prática. Acompanhe.
O que é a hérnia de hiato e por que é tão comum no idoso?
O hiato é uma abertura no diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome, por onde o esôfago passa para se conectar ao estômago. Normalmente, o estômago fica inteiramente abaixo do diafragma. Na hérnia de hiato, parte do estômago sobe por meio dessa abertura para dentro do tórax, alterando a posição e a função do esfíncter esofágico inferior, a válvula muscular que impede o conteúdo gástrico de retornar ao esôfago.
Como detalha Yuri Silva Portela, o envelhecimento favorece o desenvolvimento da hérnia de hiato por múltiplos mecanismos: o diafragma perde tônus muscular com a idade, o tecido conjuntivo que sustenta as estruturas abdominais se fragiliza, e décadas de pressão abdominal aumentada por tosse crônica, constipação e esforço físico alargam progressivamente o hiato. Estima-se que a hérnia de hiato afete entre 40% e 60% dos adultos acima de 60 anos, tornando-a uma das condições mais prevalentes da terceira idade, ainda que frequentemente assintomática em graus leves.
Por que a hérnia de hiato causa azia, refluxo e outros sintomas?
A hérnia de hiato predispõe ao refluxo gastroesofágico porque altera a geometria e a função do esfíncter esofágico inferior, reduzindo sua capacidade de impedir o retorno do conteúdo gástrico ácido para o esôfago. Quando esse refluxo ocorre, o ácido entra em contato com a mucosa esofágica, que não tem a proteção da mucosa gástrica, produzindo a sensação de queimação característica da azia. No idoso, essa sensação pode ser atípica: em vez de queimação no peito, o refluxo pode se manifestar como tosse crônica, pigarro persistente, rouquidão matinal ou sensação de algo preso na garganta.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, o refluxo noturno merece atenção especial no idoso com hérnia de hiato. Quando o idoso se deita, a gravidade deixa de ajudar a manter o conteúdo gástrico no estômago, e o ácido pode fluir livremente para o esôfago e até para a laringe e os pulmões, produzindo tosse noturna, engasgos e, em casos mais graves, pneumonias de repetição por aspiração de conteúdo gástrico.
O que muda na alimentação para controlar os sintomas?
As modificações alimentares têm impacto real e imediato sobre os sintomas do refluxo associado à hérnia de hiato. Reduzir o volume das refeições é a medida mais importante: refeições menores produzem menor distensão gástrica e menor pressão sobre o esfíncter esofágico inferior, reduzindo a frequência dos episódios de refluxo. Evitar deitar-se nas duas horas seguintes às refeições permite que o esvaziamento gástrico ocorra com o auxílio da gravidade antes que a posição horizontal facilite o retorno do ácido.
Conforme ressalta Yuri Silva Portela, alimentos que relaxam o esfíncter esofágico inferior, como chocolate, menta, cafeína, álcool e alimentos gordurosos, devem ser consumidos com moderação ou evitados em horários próximos ao sono. Além disso, alimentos ácidos como tomate e cítricos podem irritar diretamente a mucosa esofágica já inflamada pelo refluxo e piorar os sintomas em idosos com maior sensibilidade. Além dos ajustes na alimentação, elevar a cabeceira da cama entre quinze e vinte centímetros, e não apenas os travesseiros, é uma medida simples com eficácia documentada para o controle do refluxo noturno.
Quando o tratamento vai além da dieta
Quando as modificações alimentares e comportamentais não são suficientes para controlar os sintomas, o tratamento farmacológico com inibidores de bomba de próton é a primeira linha de escolha, com eficácia bem documentada na redução da acidez gástrica e na proteção da mucosa esofágica. No entanto, seu uso prolongado no idoso exige monitoramento, pois pode reduzir a absorção de cálcio, magnésio e vitamina B12, com consequências sobre saúde óssea e neurológica.
Yuri Silva Portela sinaliza que a cirurgia para correção da hérnia de hiato, denominada fundoplicatura, é reservada para casos com refluxo grave não controlado clinicamente ou com complicações como esofagite severa e esôfago de Barrett, e deve ser avaliada com critério, especialmente no idoso, considerando o risco cirúrgico individual e a expectativa de benefício real para aquele paciente específico.
